O custo médio por entrega é a métrica mais confortável do painel — e a mais enganosa. Ele dilui em um único número decisões estruturais que se comportam de forma diferente ao longo da malha: quilômetros de transferência, densidade de parada na ponta, ociosidade de frota e o rateio dos hubs de distribuição. Quando o gestor persegue esse número isolado, corre o risco clássico de ótimo local: melhorar um trecho e degradar a rede inteira.
Este é um problema material no Brasil. O estudo anual “Custos Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras”, do ILOS, revelou que os custos logísticos no Brasil equivalem a 15,5% do PIB em 2025.
O maior peso segue sendo para os valores gastos com transporte (8,5%), estoque (5,3%), armazenagem (1%) e administrativo (0,6%). Quando a conta é dessa ordem, tratar o custo como uma média achatada deixa dinheiro estrutural na mesa.
Custo médio não é TCO
Custo médio é um quociente: total gasto dividido por total de entregas. Ele responde “quanto saiu” — não “por que saiu” nem “o que muda se eu mexer no desenho da rede”. O TCO (Total Cost of Ownership) da malha é outra coisa: é a soma de todos os componentes que sustentam a operação de carga fracionada, com suas naturezas de custo (fixo, variável, semivariável) preservadas.
Numa arquitetura hub-and-spoke, o TCO precisa separar pelo menos quatro blocos:
- Middle-mile: transferências entre origem, hubs de distribuição e bases avançadas. Custo dominado por distância, ocupação do veículo e frequência da grade de expedição.
- Last-mile: a ponta final, dominada por densidade de parada, janelas de entrega e tempo por stop — não por quilômetro rodado.
- Frota: custo de posse e operação (fixo e variável), ociosidade, retorno vazio e o mix entre frota própria e terceirizada.
- Hubs: custo de instalação, movimentação e rateio de cada ponto da rede fixa.
A média mistura tudo isso. O TCO mantém cada bloco visível — e é isso que permite decidir a malha, não só executá-la.
Por que otimizar a parte piora o todo
O middle-mile e o last-mile têm funções de custo opostas. O middle-mile ama consolidação: quanto mais carga por transferência, menor o custo por unidade. O last-mile ama proximidade e densidade: quanto mais paradas próximas por rota, menor o custo por entrega.
Otimize apenas o middle-mile — concentrando volume em poucos hubs distantes — e você encarece o last-mile, porque as rotas de ponta ficam mais longas e menos densas. Otimize apenas o last-mile — pulverizando bases avançadas para ficar perto do cliente — e você multiplica transferências, quilômetros de middle-mile e custo fixo de hubs. Cada movimento parece uma vitória no seu indicador isolado e uma derrota no TCO consolidado.
É por isso que a pergunta certa nunca é “qual trecho está caro?”, e sim “qual é o ponto ótimo de malha?”: quantos hubs, onde ficam, o que vai direto sem passar por hub, qual grade de expedição e qual composição de frota minimizam o custo total — não a média de nenhum pedaço.
Desenho de rede antes de roteirização
Roteirizar bem uma malha mal desenhada apenas acelera o desperdício. A sequência correta é: primeiro o desenho de rede (clusterização de demanda, definição de hubs, política de direto versus transbordo, dimensionamento de frota), depois a grade de expedição e só então a roteirização e a execução.
O reconhecimento de que a alavanca principal está no planejamento é setorial. A redução do custo logístico brasileiro depende menos de investimentos isolados e mais de decisões integradas, do uso intensivo de dados, da adoção de ferramentas de planejamento e reequilíbrio modal. No nível da empresa, isso significa modelar a malha como um sistema — não somar otimizações locais.
Como comparar cenários pelo TCO
Comparar cenários exige tratar middle-mile e last-mile como contas separadas que se somam, e trazer frota e hubs para dentro da conta. Um cenário com mais hubs pode reduzir o last-mile e elevar o custo fixo de rede; outro com transferências mais longas pode baratear o middle-mile e piorar a ponta. Só a soma dos quatro blocos, sob a mesma demanda histórica, revela qual desenho vence.
Alguns princípios ajudam a manter a comparação honesta:
- Use o histórico real de entregas como base de demanda, não médias.
- Modele o custo fixo dos hubs e da frota, não só o variável por km.
- Avalie sensibilidade: o cenário vencedor se sustenta se o volume oscilar 20%?
- Trate ociosidade e retorno vazio como custo, porque são.
Perguntas frequentes
Custo médio por entrega não serve para nada?
Serve como termômetro de acompanhamento, mas não como base de decisão estrutural. Ele esconde a composição da malha e leva a otimizações locais que degradam o TCO. Para decidir hubs, frota e grade, você precisa dos blocos separados.
Qual a diferença prática entre middle-mile e last-mile no TCO?
São funções de custo opostas: o middle-mile responde a distância e consolidação; o last-mile, a densidade de parada e janelas. Somá-los numa média esconde justamente o trade-off que define o ponto ótimo de malha.
Preciso trocar o roteirizador para trabalhar com TCO?
Não. O TCO é uma questão de desenho de rede, uma camada acima da roteirização. Primeiro define-se a malha e a grade; a roteirização executa sobre esse desenho.
Olhar o TCO da malha em vez da média é a diferença entre gerir custo e gerir a rede. É deixar de perseguir o número confortável de um trecho e passar a comparar cenários completos — middle-mile, last-mile, frota e hubs somados sobre a sua demanda real. Se você quer enxergar onde está o ponto ótimo da sua rede, o caminho é rodar um cenário da sua malha a partir do próprio histórico de entregas que sua operação já gera.